Redesenhando abordagens, solucionando problemas: o Design Thinking como possibilidade para educadores

Sexta, 18 de Dezembro de 2020  .   por Tri.P EAD  .  Leitura: 6 minutos

Redesenhando abordagens, solucionando problemas:

O Design Thinking como possibilidade para educadores

Por Andressa Fonseca,  Assessora Pedagógica do Sistema de Ensino Eleva.

 

Todo educador, em algum momento da vida, já se sentiu frustrado com alguma situação-problema ou impasse, na sua prática ou ambiente de trabalho, que parecia impossível de transpor. Durante os anos de 2018 e 2019, fui contemplada com um desafio de tal tamanho como ainda não havia enfrentado: lecionar História - minha área de formação e prática - para alunos de pré-vestibular em uma modalidade noturna, na qual o cronograma era tão extenso quanto o das  modalidades integrais, porém o conteúdo deveria ser transmitido em apenas metade do tempo.

Logo no início do planejamento, comecei a antecipar, de todo pessimista, que algo na minha prática se perderia: fosse a profundidade na abordagem, fosse a possibilidade de debater e instigar o questionamento nos meus alunos, talvez até mesmo a personalidade das aulas. Afinal, como manter qualquer qualidade quando o tempo é curto e o cronograma é extenso? Certamente seriam um ou dois anos letivos muito robóticos, pensei. Como poderia sair algo bom de uma situação assim?

No começo das aulas, o desconforto se transformou num impasse: durante duas semanas de uma rotina rígida e corrida, saía de sala derrotada, pensando: “Como os outros professores conseguem? Será que o problema está em mim ou na estrutura?” As perguntas começaram a me incomodar. Deveria haver algum jeito de criar uma solução para essa situação na qual o resultado fosse positivo. Finalmente, então, eu entendi: o que me faltava não era o tempo ou a motivação, mas uma habilidade que, de certo modo, está moldando o modo como educadores pensam e praticam educação no século XXI. O que me faltava era a capacidade de resolução de problemas.

A partir daquele momento, comecei a pesquisar soluções e testar novas ferramentas: mapas mentais, sala de aula invertida, storytelling, recursos digitais, tudo para tentar criar uma abordagem que pudesse maximizar a qualidade do meu tempo em contato com os alunos. Resolvi definir quais eram os principais obstáculos que me incomodavam, para então criar um plano de ação estruturado. Foi então que me deparei com uma metodologia que em tudo se relacionava com minha tentativa de mudar de perspectiva sobre a resolução de problemas - o Design Thinking, também conhecido como Pensamento por Design.

O Design Thinking é uma abordagem metodológica focada na resolução de problemas complexos e sua premissa é o design centrado em pessoas e suas necessidades individuais e coletivas. A abordagem, que nos últimos anos tem sido amplamente utilizada por educadores, surgiu na década de 1990 e é creditada aos norte-americanos David Kelley e Tim Brown, da empresa de consultoria em inovação IDEO. Fundamentalmente, a proposta do Design Thinking é desenvolver um processo intencional para analisar uma situação ou problema e alcançar um resultado inovador através de soluções criativas.

Apesar de ter raízes antigas no próprio design, a originalidade do Design Thinking - ou DT - é justamente a centralidade no ser humano. Por esse motivo, o processo rapidamente chamou a atenção de educadores do mundo inteiro, que perceberam que, ao utilizar essa abordagem, desenvolviam nos alunos habilidades essenciais que são necessárias para a vida em sociedade no século XXI. Nesta sociedade da mudança, onde as aprendizagens - ao mesmo tempo em que valores e códigos, igualmente - estão em constante transformação, existe uma alta demanda para equipar estudantes com meta-competências¹ que ultrapassam o conhecimento cognitivo.

O lugar da escola, no nosso século, é um lugar essencialmente de transição: passamos da transferência do conteúdo e da educação bancária, como cunhou Paulo Freire na década de 1990, para a educação transformadora e facilitadora, que desenvolve os potenciais individuais de cada aluno e compreende as pessoas e as aprendizagens de forma mais holística. Após décadas fragmentando os conhecimentos em objetos isolados e disciplinas específicas, como aponta Gardner², perdemos a habilidade de criar conexões orgânicas e destruímos pontes entre os diversos saberes. O Design Thinking é uma das abordagens que possibilita a restauração dessas pontes e a criação de novas perspectivas.

Em uma tentativa de reconectar o ambiente dos aprendizados com o ambiente social e cultural, da ordem dos problemas complexos e dos desafios que pouco se relacionam com o conhecimento convencional, educadores de todo o mundo teorizaram e desenvolveram as habilidades essenciais para os alunos do século XXI, que envolvem desde conhecimentos e capacidades até atitudes e valores³. Dentre elas, podemos destacar o pensamento crítico, a resolução de problemas, colaboração, adaptabilidade, curiosidade e imaginação, investigação e análise de informação. Todas essas habilidades, entretanto, devem ser abordadas por meio da relação e da interação entre o objeto e o contexto - e nunca separadamente.

Como afirma Dewey, “não existe um ‘eu’ sem um ‘nós’4 e, portanto, auxiliar indivíduos a compreender o fenômeno para além de suas partes, poderia, ou melhor, deveria conduzir a educação para o futuro. Essa abordagem holística é o que orienta o Design Thinking, ao partir de questões particulares para encontrar soluções duradouras que compreendam indivíduos e grupos de forma integral. Muitos são os problemas que acometem os educadores atualmente - alunos desinteressados, professores estafados e comunicação disfuncional com as famílias são apenas alguns deles  -, e o DT se mostra como uma chave de pensamento, capaz de posicionar o professor de modo estratégico para acompanhar de perto as necessidades dos estudantes e os problemas que circundam a sala de aula. Consequentemente, é essa posição que o torna qualificado para entender e planejar as melhorias das quais a escola precisa.

Problemas podem ser oportunidades para a descoberta de soluções, melhorias, novas práticas e abordagens e, por esse motivo, o DT tem quatro características fundamentais que podem ser valiosas para educadores: é centrado no ser humano (parte da empatia e do entendimento das necessidades das pessoas); é colaborativo (aprecia as várias perspectivas e entende que muitas mentes são mais eficazes do que uma para resolver um desafio); é otimista (tem a crença no indivíduo como criador de mudança); e, por fim, é experimental (propõe um ambiente onde “errar” é apenas uma etapa do processo, que nunca acaba).

A partir de um processo direcionado, como vemos no esquema abaixo, o DT, por ter como base a aprendizagem investigativa, cooperativa e empática, oferece um processo criativo e inovador para o professor, além de aprimorar a colaboração entre os alunos, criando maneiras efetivas de engajar com esses, bem como proporcionando autonomia, liberdade de pensamento e de ação.

Fonte: Kit Design Thinking para Educadores

 

Além dos benefícios para o desenvolvimento dos alunos, o DT é também uma valiosa ferramenta para o educador, uma vez que introduz novas maneiras de enfrentar os desafios que esse encontra no cotidiano do ambiente escolar. Sempre incentivando a mudança e evitando a estagnação, o Design Thinking pode tanto ajudar o professor a redesenhar uma abordagem para se adaptar à um contexto específico, como foi o meu próprio caso entre 2018 e 2019, ou até mesmo trabalhar questões em torno de emoções, tecnologias, cronogramas, engajamento e tantas outras, para auxiliar no fortalecimento de uma prática educadora que pensa no futuro e que tem como base o aspecto humano e verdadeiramente transformador, aprofundando as conexões entre saberes e indivíduos, em vez de apartá-las.

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¹ SCHEER, Andrea; NOWESKI, Christine; MEINEL, Christoph. Transforming constructivist learning into action: Design thinking in education. Design and Technology Education: An International Journal, v. 17, n. 3, 2012, p. 9.

² GARDNER, Howard.: Five Minds for the Future, Mcgraw-Hill Professional, 2007.

³  WEINERT, Franz E. Concepts of competence. OFS, 1999.

4 DEWEY, John. Democracy and Education: AnIntroduction to the Philosophy of Education. MacMillan Company, New York, 1916.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CASSIM, F. (2013). Hands On, Hearts On, Minds On: Design Thinking within an Education Context. International Journal of Art & Design Education, 32(2), 190–202. doi:10.1111/j.1476-8070.2013.01752.x Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1476-8070.2013.01752.x

DEWEY, John. Democracy and Education: An Introduction to the Philosophy of Education. MacMillan Company, New York, 1916.

Pande, M., & Bharathi, S. V. (2020). Theoretical Foundations of Design Thinking – A Constructivism Learning Approach to Design Thinking. Thinking Skills and Creativity, 100637. doi:10.1016/j.tsc.2020.100637. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1871187119303104

GARBIN, Mônica Cristina; AMARAL, Sérgio Ferreira. Design Thinking: A Colaboração como Mola Propulsora da Inovação na Educação. Revista InovaEduc| nº, v. 2, 2013. Disponível em: https://www.lantec.fe.unicamp.br/pf-lantec/n2.art5_.pdf

GARDNER, Howard.: Five Minds for the Future, Mcgraw-Hill Professional, 2007.

HENRIKSEN, Danah (2017) "Creating STEAM with Design Thinking: Beyond STEM and Arts Integration," The STEAM Journal: Vol. 3: Iss. 1, Article 11. DOI: 10.5642/steam.20170301.11 Disponvíel em: http://scholarship.claremont.edu/steam/vol3/iss1/11

Riverdale, I. D. E. O. "Design Thinking para Educadores." Traduzido por Instituto Educadigital.[2013]. Disponível em: http://www.dtparaeducadores.org.br 

SCHEER, Andrea; NOWESKI, Christine; MEINEL, Christoph. Transforming constructivist learning into action: Design thinking in education. Design and Technology Education: An International Journal, v. 17, n. 3, 2012. Disponível em:

https://eric.ed.gov/?id=EJ996067

WEINERT, Franz E. Concepts of competence. OFS, 1999.

 

Palavras-chave: Metodologias Ativas; Design Thinking
Tri.P EAD
Autor: Tri.P EAD