Tendências no Ensino de Matemática do século XXI - Ensino Fundamental 1

Sexta, 18 de Dezembro de 2020  .   por Tri.P EAD  .  Leitura: 5 minutos

 

Tendências no Ensino de Matemática do século XXI - Ensino Fundamental 1

Por Maria Dias, Líder de Matemática do Ensino Fundamental da Escola Eleva e Assessora Pedagógica do Sistema de Ensino Eleva.

 

Com a chegada da BNCC e das novas metodologias ativas, seria inevitável pensar em como ficaria o ensino de matemática no meio de tanta informação. Principalmente considerando-se que esse precisa ser urgentemente repensado, uma vez que, historicamente, a matemática é ensinada a partir de contextos fora da realidade do aluno, sem aplicação imediata, de maneira procedimental e baseada em memorização. Além disso, existem e persistem algumas crenças sobre o “dom” da matemática, a ideia de que há alguns alunos que “nasceram para isso”, enquanto outros “não levam jeito”. A teoria das múltiplas inteligências, de Howard Gardner, comumente mal interpretada e aplicada nas escolas, veio reforçar, por conta dessa má interpretação, que diferentes alunos têm diferentes inteligências, intensificando o mito de que nem todos nasceram para matemática.

Podemos pensar então, primeiramente, nas crenças que temos a respeito dos nossos próprios alunos. Alguns parecem absorver a matéria, mesmo quando nós achamos que não explicamos tão bem assim. Aceitamos quando dizem “não sei como, mas sei a resposta”. Tudo muito natural, como se seus talentos matemáticos explicassem tudo. No entanto, dois pesquisadores britânicos, Eddie Gray e David Tall, fizeram uma pesquisa com alunos entre 7 e 13 anos de idade e, nos grupos estudados, havia alunos denominados “fracos” e “fortes” em matemática, por seus professores. Aos estudantes, eram dados problemas numéricos simples, tais como adição ou subtração de dois números.

Os pesquisadores perceberam que a diferença entre os resultados dos alunos que eram considerados “fracos” ou “fortes” por seus professores era uma só: os “fortes” resolviam as questões usando senso numérico, pensando nos números e nas quantidades flexivelmente. Já aqueles considerados “fracos” resolviam os problemas tentando aplicar métodos decorados e praticados extensivamente, mesmo que esses não fizessem nenhum sentido para aquela situação. Por exemplo, quando pedido para que calculassem 21 - 6, os alunos “fortes” calculavam 20 - 5 e resolviam a questão suavemente. Os alunos “fracos” contavam de 21 para trás, 6 unidades, perdendo-se no meio da contagem, ou então armavam a conta e já começavam a se enrolar na hora de subtrair as unidades (1 - 5), precisando reagrupar imediatamente.

Os pesquisadores concluíram que os alunos considerados “fracos” não sabiam menos matemática, mas interagiam com ela de maneira diferente, sem utilizar o senso numérico e, por isso, ficavam presos a procedimentos ensinados na escola, sem usar a criatividade nem se sentir à vontade para resolver os problemas da maneira que achavam melhor. Possivelmente, esses estudantes acreditavam que matemática só pode ser feita de uma única maneira, que os procedimentos devem ser memorizados e que não há liberdade ou criatividade na matéria.

 

Nesse cenário, precisamos acreditar em alguns novos paradigmas matemáticos:

I - Todos podem aprender matemática em alto nível;

II - Velocidade não é importante, profundidade sim;

III - Os erros são parte importante do processo de aprendizagem;

IV - Desenvolver a criatividade matemática é essencial.

 

Matemática é um fenômeno cultural, um conjunto de ideias, conexões e padrões através dos quais estabelecemos relações para compreender o mundo em que vivemos. Quando não mostramos aos alunos a beleza e a profundidade da matemática, estamos negando a eles a chance de experimentar todas as maravilhas da disciplina.

Outra grande novidade no campo do ensino da matemática são os princípios norteadores da BNCC e os eixos temáticos, que apesar de já estabelecidos em outros países, aqui no Brasil ainda são campos desconhecidos, inclusive das pedagogas e dos pedagogos que lecionam a matéria nos anos iniciais do ensino fundamental. São eles a probabilidade e a estatística, a álgebra e a geometria. A matemática ensinada nas escolas de ensino fundamental, de modo geral, concentrava-se em números e operações. No entanto, se há uma habilidade que pode ser totalmente descartada na hora de procurar um emprego, é a de fazer contas. Afinal, celulares e computadores fazem todo o trabalho por nós. O que precisamos saber é como interpretar resultados e números, programar planilhas e ler corretamente informações em gráficos e tabelas. Essas habilidades são básicas e nos servem a todos, independentemente da área em que trabalhamos.

Mas como desenvolver o senso numérico e ainda conseguir contextualizar as aulas e adequá-las dentro de todos os eixos temáticos? Como todos os avanços na área de educação, essas transformações também são lentas e requerem tempo, treinamento, estudo e prática. No ensino da matemática, não poderia ser diferente. Pessoalmente, apesar de conhecer a necessidade e a importância da BNCC, entendo que sua simples existência já nos traz limitações e imposições curriculares que dificultam esse percurso. A base, ainda que seja o melhor e mais necessário documento curricular em nível nacional que já tivemos até agora, a meu ver, ainda traz resquícios conteudistas de tempos passados.

Sabendo que o senso numérico é a necessidade mais imediata a ser implementada nas escolas e no fazer pedagógico, trago aqui algumas ideias para que consigamos transformá-lo em prática de sala de aula. Primeiramente, o próprio professor precisa deixar de lado algumas certezas que tem a respeito de números e operações, deixando-se levar pela lógica, criatividade e pela possibilidade de construir e aprender junto com os alunos. Observe as soluções abaixo para o cálculo 18 x 5:

Fonte: https://www.youcubed.org/

 

Nesse exemplo, vemos 4 modos diferentes de chegar ao resultado da conta, além da sua relação com área de retângulos, assunto de geometria. Exemplo clássico de flexibilidade numérica, é possível fazer uma aula inteira apenas com demonstrações, discussões e representações visuais de apenas uma conta. Desenvolvemos o senso numérico de nossos alunos por meio de atividades como essa, que chamo de “conversas numéricas”, tradução livre e feita por mim, dos chamados “Number talks” de Ruth Parker, colaboradora de Jo Boaler, principal referência para as ideias aqui desenvolvidas.

Outro conceito muito importante é o das atividades do tipo “Piso baixo, teto alto”, que contemplam alunos que se encontram em momentos diferentes do desenvolvimento, onde todos podem trabalhar ativamente, colaborativamente e chegar a diferentes níveis de respostas, sem no entanto, sentirem-se menos ou mais inteligentes que outros do seu grupo escolar. Sou professora e sei a dificuldade que é organizar os recursos com antecedência e propor trabalhos em grupos, principalmente em matemática. Estou em sala e vivo na pele os percalços de tentar inovar em um caminho que não é rápido ou fácil. Mas por experiência própria, insistir na prática, nos combinados com a turma, nas atividades colaborativas e em um planejamento cuidadoso rende frutos. A transformação acontece. Não vamos atingir todos o tempo todo, isso é claro, mas podemos atingir mais alunos a cada aula.

O material didático pode ser um aliado nessa caminhada. Escolher quais atividades serão feitas em grupo, ler o material do professor, tentar algumas das sugestões para enriquecimento do grupo, propor jogos e investigações matemáticas são algumas propostas do que se pode executar em sala de aula para desenvolver o senso numérico, por exemplo. É, realmente, uma guinada radical, mas extremamente necessária em nossa forma de ensinar, se queremos fazer despertar em nossos alunos o amor pela matemática real, a qual eles irão de fato usar pelo resto de suas vidas.

 

Referências Bibliográficas:

BOALER, J. (2014): Fluency without fear: Research evidence on the best ways to learn math facts. Disponível em https://www.youcubed.org/evidence/fluency-without-fear/.

BOALER, J. (2015): What's math got to do with it? How teachers and parents can transform mathematics learning and inspire success. New York: Penguin.

BOALER, J.: Mathematics Mindsets

GRAY, E. & TALL, D. (1994): Duality, ambiguity and flexibility: A “proceptual” view of simple arithmetics. Journal for research in Mathematics Education.

FINKEL, Dan: https://mathforlove.com/dan-finkel/

 

Palavras-chave: Metodologias Ativas; Ensino Fundamental Anos Iniciais; Ensino de Matemática
Tri.P EAD
Autor: Tri.P EAD